Hei, você já sentiu?
Eu sinto toda hora. Faz um frio danado aqui. Um copo com fanta uva adoça descaradamente a minha garganta. Enquanto lá fora sinto o mês de Agosto entrando pelas frestas da porta. Nunca me senti tão confortável. Nem imagino um Agosto voraz antecedendo um Setembro primaveril. É que por tanto tempo observei os ventos trazidos, pelo olho mágico da porta. Não, não é fácil. Eu fiz o impossível, desejei com olhos de inverno que o tempo parasse no mês de Maio.
Tem incenso de canela aqui. Tem alguns livros sobre o chão de madeira. Encontro a poesia nas linhas tangíveis de uma história nossa. Tem um abraço gelado aqui também.
As palavras escorrem entre as dúvidas plausíveis. Um sopro de luz na janela opaca, uma rasura no peito.
Eu joguei meu coração na lareira e deixei queimar. Não te convido à entrar neste porão de devaneios. Nem chore por mim.
Há versos pincelados e beijos que pintei com giz de cera. Você poderia vir buscar. Tomar um Frozen Coffee na Padaria da esquina, rir das minhas caretas, escondendo seu jeito sério por trás desses olhos de céu.
Ainda sinto teu cheiro de avelã. Respiro a saudade em cubos de gelo. Madrugada fria.
Suspiro lento, me deito sobre o chão. Nas mãos algumas cartas. Pedaços de você descritos na alma. Um peso sobre as retinas. O sono me devora pausadamente.
Essa coisa toda de amor rondando cada centímento dos meus sonhos. E você ali ternamente deitado ao meu lado observando cada gesto da Lua. Um tango, jazz, blues e você. A cabeça girando, goles de caféina no café da manhã.
Café só é bom pra despertar. Nem venha me cobrir com seu casaco de couro. Eu quero mais é sair por essa manhã escandalosa de Agosto e deixar essa ventania me arrebatar.
Teus risos, sufocam a alegria imaginária do nosso amor. Eu quis tanto tocar essa sua vidraça blindada. Eu quis te roubar do Agosto assombrado e desenhar um Setembro colorido, poderíamos beber as cores de um arco-íris.
Agora me deixa, descomplica esse teu jeito torto de me olhar e me veja pelo melhor ângulo, meu sorriso vai te cercar nas suas muralhas de pedra. Eu me ajeito melhor nas prateleiras do inverno. Deixa passar. Setembro virá.
Nós vamos nos encontrar. E será?
Que dá pra sentir?
Só um pouquinho...


