Black Tie

Como segurar a tua mão? Como? Se o frio se estende do outro lado da cama?
Como tocar teu rosto, se tuas pernas alcançaram o outro lado do Oceano?
Entra e sai do meu pensamento. Pega tuas roupas amarrotadas. Deixei as gavetas entreabertas. As persianas congelaram. Pisoteio na tua camisa verde clarinho. Engulo soluços contidos e canto junto com Adele. Someone Like You se arrasta na caixa de som. Adele canta novamente pra mim. De novo e outra vez. Eu vou repetindo baixinho: Sometimes it lasts in Love. But sometimes it hurts instead.E você vai doendo em mim. Experimento tua torta preferida de maça. Tem teu gosto. Úmido. Tua presença inconsciente no meu jeito de escrever e doer. Recortes em cima da mobília. Ouço as risadas coladas no retrato preto e branco. E teu riso é o único colorido. E meu amor fica quentinho no peito, não morre, não dói. Respira.
Escrevo enquanto o riso encontra palavras soltas debaixo do meu colchão. O sossego momentâneo se instala ao fim da música. Rabiscos. Eu gostei da simetria das linhas. O espaço desenhado na calmaria da sua falta. Como se tuas mãos pudessem alcançar o desespero das minhas. Guardo as últimas rosas. Aquele ramalhete murcho, que deixei fora do vaso, enquanto tuas malas se deslocavam feito trem bala do meu apartamento. A despedida ainda fere o sentimento conjugado no pretérito mais que perfeito de sua vida. Onde as lamúrias que se espalham perante a lareira do meu peito, acabam repousando na instabilidade dos seus olhos ligeiramente incrédulos. A palidez de sua memória faz parte do meu plano de fuga. Sei exatamente onde você se esconde, mas me recuso a estabelecer qualquer tipo de conexão. Seja por telepatia, virtual ou espiritual. Agora que meu peito acostumou-se a vestir Black Tie, com sua licença, beibe, vou dançar alguma valsa no parapeito do meu desespero. Na pista do amor quem dança sou eu.