Literatura fria.

Doeu quando passei os olhos na palavra “despedida” ali desfocada, descabida e murcha. Ela não estava no centro, mas sim no início. Se é que ele existiu pra você. De onde veio? eu não sei, não entendo. Mas sei que dói em cada linha das tuas letras miúdas aqui despretensiosas, soltas circulando na minha falta de pretensão de querer agradar o mundo. No meio dessa gente hipócrita com cara de borracha fosca, eu te achei e te fiz meu amigo. (meu melhor). Consertei minhas verdades pra te mostrá-las mais bonitas, tu soubeste da minha dor quando lhe contei das minhas piores lembranças. É com lágrimas agora, que guardo de ti a risada invisível que nos preenchia nas tardes modorrentas de calor e tédio. E toda essa vontade de gritar explode aqui dentro feito bomba relógio _ Poxa eu sou de verdade. Eu não sei forçar sentimento algum. Eu sinto, sinto muito babe, sinto o encantamento quase transparente se tornando cinza, até que se torne preto e branco, bem no meio da nossa cumplicidade silenciosa, no nosso jeito rotineiro de dizer Oi. Não era hábito de minha parte, nunca foi. Era feeling, acredito. O silêncio não veio só, ele trouxe a companhia do medo (do teu medo). A tua “despedida” eu vou beber até engasgar, pra sufocar esse tal carma que você descreve como perda. E se quer mesmo saber, essa droga de literatura é fria demais pra esse coração meu tão quente.

Quem era ela?

O que estaria por trás daquele sorriso? Tristeza camuflada? Vingança? Frieza? Talvez fosse apenas felicidade, simples e óbvia. Mas quem disse que ela era óbvia? Se nem Freud conseguiu dizer com exatidão, apenas revelou que era um continente obscuro. Como ela, que nada entendia de comportamento humano saberia indicar a saída do labirinto? Era c...omo desvendar o sorriso de Monalisa.
Quantas habitavam sua mente, seus quereres e qual predominava?
Descobriu que as pessoas não mudam, ela não mudou. Continuava ciumenta, teimosa, encrenqueira e sabia ser doce, contar histórias, inventar personagens, mudar as lentes da realidade em busca do cenário do sonho.
Sabia quem era, mulher, mãe, amiga, amante, cigana e outras tantas. Sentia saudade do cheiro da verdade, daqueles que dizem o que pensam, mas principalmente daqueles que não fazem a menor idéia para onde estão indo, por não possuírem a arrogância dos que sabem tudo. Preferiu deixar suas gavetas internas bagunçadas, era assim que se achava.
Sentia as pinceladas do vento no rosto e gostava do arco-íris feito de riso. Ela era a pressa encolhida no meio da timidez ou a garra que a segurava na loucura. Era o passaporte rápido pro inferno, com direito a serenata de anjos de vez em quando. Todos os medos não cabiam na proporção exata, eram eles que a cobriam de luz e as vezes de escuridão.
Além de mulher, ela era o presente de um verão perfeito, o preto e branco ocasional do inverno e a presença inoportuna da primaveira no meio de um outono esvoaçante.
Sim, ela preferia a incerteza dos amores amassados na gaveta, do que a perfeição traiçoeira de um amor alinhado e démodé. Ela almejava as nuvens sem se importar com a indisposição da chuva, porque além de secar-se sob o sol ela pendurava todas as perguntas na cara do vento.

Texto feito com a parceira e amiga Renata Fagundes do blog http://ctricocintilante.blogspot.com/

Hardcore

Me contaram que o amor é uma brisa fresquinha que bate no rosto. Falaram também das poesias que o amor é capaz de cifrar. E todas as vozes que diziam eram ruborizadas pelo meu riso desacreditado. Comigo nenhuma brisa, nenhuma cifra melosa e nenhum passarinho verde tocando flauta. Comigo é só ventania e rock pesado. É desse jeito que o danado aparece, ele toca bateria as 2:00 da manhã pra me despertar com a saudade, faz soneto de ciúme pra eu guardar nos olhos e gruda a tal da impaciência bem no meu nariz. Eu pedi orquestra e o danado veio de super star. Eu pedi new age e ele, maldoso, veio tocando hardcore.