Café com leite. As torradas com manteiga e os rabiscos sonorizados na margem esquerda da agenda. Dois minutos de meditação. Aula de yoga as 10:00, curso de francês as 11:30 e um pouco de descaso diante dos afazeres rotineiros.
Distribuo fragrâncias doces em recipientes nobres, feito seu coração. Detalho nossa intensidade de sentir medo. É tanto medo de errar. Tantas histórias desmontadas e recriadas ao longo de nossos passos incertos que bate uma certa vontade de se perder um pouco. Sabotei meus mistérios pra te entregar na bandeja meus pontos fracos e mostrei à você todas as minhas alegrias matinais, forjadas. Ninguém sorri, meu bem ás 6:30 da manhã, me calo. Enquanto tua ladainha matinal ganha a força de um lampejo estrondoso, encontro dentro dos teus olhos azuis safira uma poção natural de satisfação. A alegria semeada já não é a peça chave de nossas interações românticas. A fórmula que nos une é exatamente a mesma piada excruciada e estampada em nossos rótulos. Confio na sua bagagem emocional, pois da mesma forma você acredita nas minhas loucuras de fim de noite. E exatamente igual ou melhor do que eu, você sabe tudo sobre meu Transtorno Obsessivo Compulsivo e faz sinal de alerta quando algo de errado começa a se manifestar.
Está gravado em minha coluna cervical as letras conturbadas de um laço contínuo e arrebatador como o nosso. A-M-O-R. Enquanto as palavras se juntam na espreguiçadeira lá da sala, nós esboçamos os fatos em frente a torradeira da cozinha. É apenas o acaso benzinho. Você se encantou quando descobriu minha mania frenética de saborear tomate com sal as 22:00hs e achou uma graça. E nunca me viu comer pão com mel, mas prometeu experimentar mais de duzentas vezes. É essa sua falta de tato com os outros que me empurra diretamente para os seus braços e abraços. Enquanto caminho sozinha, você economiza as minhas lamúrias num cofre de decepções ligeiras. Nossa cumplicidade exagerada estraga qualquer cotidiano, porque exala um ar fresco de manhã risonha. Um misto de moletom cinza de dormir com terno Armani pra sair. É só intuição meu bem, daquelas guardadas em frascos que nunca perdem a validade, porque são restritos ao mal do mundo. É, minha petulância não é tão covarde, nem tão azeda. Mas sabe muito bem diferenciar minhas tolices e minhas dores. Lembra da nossa última discussão? Daquela vez que você bateu a porta na minha cara e saiu bufando escadas à baixo feito cão feroz. Depois do seu showzinho de fim de domingo, fui até a cozinha e peguei um tomate, cortei ao meio e coloquei sal, ali mesmo no canto da porta pus-me a saboreá-lo, feito criança birrenta com a cara mais deslavada do mundo e com a dor mais intensa pulsando feito bomba relógio, enquadrando meu peito inteiro, sem limites. As papilas gustativas de minha boca começavam a digerir a aspereza do sal e o insosso do tomate como se fossem fagulhas de uma dor, lasciva, pungente e cansativa. Era como se esconder de um veneno que teimava entrar nos meus lábios, uma tentativa de corroer a dor do mundo e guardá-la quente e voraz dentro do oco do peito.
E você retornou, me pegou ali, fulminando minha própria agonia dentro do meu antigo e rotineiro alicerce pra seguir em frente. Então, você riu, baixinho e de olhos fechados. E aquela única sequela de culpa ainda estava nas minhas mãos. Tomate com sal. Era dessa maneira que eu escondia meus predicados, meus descompassos, minhas loucuras. E você pegou a outra metade do tomate encheu de sal e comeu ali do meu lado atrás da porta da cozinha, feito inteiro, sem metade, sem distorção. E hoje o sal que o tomate carrega já é tão doce que tornou-se meramente ilustrativo.


