Sorte Minha

Gosto de ser menina, a fantasia é minha revolta. Me visto de mulher pra enfrentar a rotina, o disse-me-disse, os toques e os timbres.
Gosto de gente que sabe decifrar, que inala o personagem, que reluta, que quer saber mais...
Não entendo de gente azeda. Gosto de açúcar. Gosto de me esbaldar no sonho e não tenho hora pra acordar. Ando vestida de realidade, mas pego carona no clichê “Imaginação”. Sou solta, leve, camaleoa.
Visto-me de céu. Faço-me de lua. E se quiser me pintar de “vida”, claro, possuo uma, a minha.
Então por favor, não faça morada nas minhas adversidades, nem nos meus defeitos, pareço clara, mas sou feita de noite.
Costumo vestir o tempo, não tenho contrato com o atraso, quer correr? Corra. Eu tô lucrando. Nasci com a sorte de ser apenas partida

Humana.

Não sou da espécie robótica, embora tenha sensores de reconhecimento facial e mecanismos que reconhecem vozes. Sou daquele tipo sensível demais, que gosta de olhar nos olhos. Sou dessas que não se contentam com o sentimento automático, ou com a frieza da modernidade. Gosto de me encaixar na anatomia de abraços sinceros, daqueles que posso medir a temperatura dos corações com esse tal termômetro que as pessoas chamam de afinidade.

Nota.

"Nunca a toquei. Sequer, pessoalmente, a vi. Mas deve ser doce. Docíssima. Pele de pêssego, sorriso marcante, amor transbordando pelos poros. Cheiro de jasmim. Se não, qualquer outro perfume que venha cravejado de amor. Tem a arte de semear palavras e despertar suspiros, carregando as linhas com verdades inventadas. Ela é moça tão menina e tão mulher, tão inocente. Embora, nas entrelinhas, não tanto. Tem pele de neve, dedos suaves e imaginação fértil, gritando em silencio tudo o que a cabeça não para de pensar. Ela cala com as palavras. Ditadas, digitadas, divididas, compartilhadas. É apaixonante e apaixonada. Cativo. É isso. Admiração eterna minha e, em segredo, confesso: inveja literária também."

"Pra doce Ju Fuzetto, que cobrou e recebeu. Prometo fazer jus n’outro texto. Esse, só rabisco."


Texto feito por Eduardo Monteiro, um amigo querido do blog:
http://dumonteiro.blogspot.com/

Obrigada Dú, de coração.

Ouvindo meu silêncio

Eu ando afônica beibe, as palavras resolveram caminhar sozinhas, fizeram morada na timidez de minha voz. Eu entendo, não preciso que elas se fixem, não preciso de voz. Quero caneta, papel e um punhado de decisão pra abranger essas linhas que andam passeando por minhas súplicas. Quero me atrasar, perder o compasso com a rotina, desativar os sentidos e ser parte dessa história. Não preciso mover os lábios, é minha mente que fala, meu roteiro é apenas suspiro, linhas que não procuro. Meu medo é quente, minha coragem é fria.

Me calo para me esconder da razão, me mostro pra emoção, me visto com meus quereres e sigo brincando de gente que não tem medo de desilusão.
Coisa chata a tal seriedade. Eu gosto da loucura escondida em cada olhar. Da poesia fazendo serenata na minha janela. Palavras são desnecessárias pra quem é feito de sonho. Porque eu me sinto trancada por dentro, feito segredo, palavras fechadas no sotão do peito.

Sigo no embalo da voz de Ana Carolina "palavras me aguardam tempo exato pra falar, coisas minhas talvez você nem queira ouvir". Porque eu só quero ouvir. Não preciso recitar. Só quero novamente minha caneta e um pouco de amor pra silenciar. Porque eu sou dessas que se acomodam na quietude, mas esbarram no tumtum do coração. Sou daquele tipinho que se aninha na madrugada pra ouvir o barulho que o peito faz quando o amor cansa de gritar. É, eu sou. Porque pra falar de amor eu faço silêncio.


Texto feito em Parceria com a amiga Renata Fagundes do blog:
http://ctricocintilante.blogspot.com/

E você, me aceita?

Meu bom humor é de graça. Aceite. A cartilha do riso me ensina a enganar os olhos, se vejo a tristeza distraída pelos cantos, corto a volta. Aguente meu alto índice de alegria, minha poção mágica pro desespero. Aperte nas mãos meus caprichos e construa pequenos detalhes. Moro no acaso, o simples é minha corrente de esperança. Não aceito papel de má. E boazinha é um apelido quase feio. Fico no meio termo. A virtude não me atrapalha e o improvável sempre me aceita.

Às vezes escorrego, mesmo equilibrada na minha estante de conceitos. Aprenda a me ler. Apenas leia. Gosto de me esconder nas entrelinhas, de escapar nas vírgulas, de me perder nos pontos. Eu me faço, refaço, pinto e bordo do jeito estranho e poeta que sei ser. Carrego comigo o mundo, as músicas, as lembranças que, teimosa, não sei me desfazer e sorrio com chuva nos olhos, porque sempre tem algo pra se esconder. Maquiagem de graça essa, discreta como só o beija-flor sabe ser. Vou plantando o riso nas esquinas, colhendo o amor estilhaçado e reconstruindo vidas, principalmente a minha.

Tem sempre algo que falta, tem sempre uma saudade infinita, tem sempre um amor antigo, um amor morrido e um amor novinho pra ser inventado. E se é assim, invento. E reinvento todos dias, botando mais açúcar quando dá vontade ou colorindo da cor que bem desejar. Mas tem que ser doce, aceite. Preciso da doçura caminhando lado a lado, do sabor do mel nos lábios, porque já estou calejada de amargura e acidez. Principalmente das palavras, que vem com rostinho inocente, mas te derrubam e te destroem por dentro. Não, não, não. Tem que ser doce, pra aguentar o peso de todas as mentiras esfoladas que são continuamente arremessadas sobre o nosso dia a dia.

Então, por favor, aceite. A embalagem que carrego é transparente. Meus olhos possuem a doçura como lacre. Vejo o que desejo. Fecho os olhos quando perco o tino. Porque não possuo o poder de não errar. Gosto de ser humana. Meus defeitos são gritantes e minha boca costuma cuspir silêncios rodeados de solidão. Não, eu não costumo ser sozinha. Eu ando rodeada de gente. É que ás vezes minha multidão é vazia. Não ria, eu crio personagens. É minha forma de lidar com esse teatro que está montado no peito. Eu sou artista sem platéia. Criança de palavras tortas. Menina que aprendeu a não julgar. Mulher que não se esconde quando quer gritar.

E você, me aceita?

Texto feito em Parceria com a Doce Maria Fernanda Probst do blog:
http://bonequinhadeseda.blogspot.com/

Sou coisa antiga

O mundo anda mudado, moderno. Sei que essa parafernália virtual, digital, facilita e muito nossa vida. Mesmo assim, ainda não consigo entender pessoas viciadas em internet, celular, informação acelerada para mentes sedentas de novidade. As pessoas não conversam mais, mandam emails, se comunicam pelo msn, a ausência de alguém da família é facilmente resolvida pela instalação de uma web cam.

Eu quero saborear o aconchego da minha casa com as pessoas que amo, quero aquele cheirinho de bolo com café nas tardes frias, aquele doce de leite cortado na tábua, eu quero minha mente cantando as cirandas infantis que minha avó cantava enquanto varria casa, quero a família reunida e todos falando ao mesmo tempo. O abraço com cheiro de roupa limpa da minha mãe, quero banho de chuva, conversar com a lua e sentar no beiral da janela pra ver a rua.

Claro que eu gosto de internet, celular, preciso deles para escrever, para trabalhar, mas para descrever eu preciso sentir, vivenciar, degustar, isso esse mundo cibernético não pode me oferecer.
Quero saborear possibilidades, tatear o mundo, sentir o cheiro que vem das pessoas, eu quero que seja real.

Porque a realidade não é essa coisa de gente vestindo perfeição atráves de uma tela de computador. Risos maquiados de falsidade, poses e viagens, cenários montados pela covardia de gente de mentira.

Não vou me vestir de insignificâncias só pra mostrar pro mundo que sou melhor ou pior. Não me escondo da vida, me mostro pra ela com leveza e verdade. Quero tocar no coração das pessoas, com as mãos. Quero massagens de simplicidade na alma. Quero cócegas, quero mais do que esse mundo irreal tem pra oferecer. Eu sou inteira e ao mesmo tempo tão limitada. Não me comporto bem diante do que não me toca, daquilo que não me faz desatinar. Eu preciso ser ouvida, eu gosto de ouvir. Gosto da conexão entre o toque e o abraço. Web cam? Pra quê? Não quero ver o superficial. Ele não me prende, não fascina. Eu gosto de olhar o que tem por dentro das retinas. Tenho coração, não CPU.


Texto feito em Parceria com minha amiga Renata Fagundes do blog:
http://ctricocintilante.blogspot.com/